Crônicas

In-cels ou In-hells?

Numa conversa de bar, ouvi, na mesa ao lado, alguém chamar um colega de trabalho de “incel”.

A palavra me chegou torta. Pensei ter escutado “in céu” — algo estrangeiro mal pronunciado, desses modismos que sobem à cabeça depois do segundo chope.

Nada disso.

As amigas se entreolharam com um susto breve — desses que duram menos que a espuma no copo.

— Justo ele? Bonito, cargo alto, vida ajeitada… um pouco inseguro, talvez. Mas isso?

— Escuta o que ele anda dizendo — respondeu a outra. — No cafezinho começou a atacar uma colega.

Disse que as mulheres estão “com poder demais”. Que ela recusou sair com um amigo dele porque o rapaz não é um “Chad”.

A mesa quase tremeu.

— Chad?

Risadas curtas.

— Esses machos-alfa de fórum. Os eleitos. Os que, segundo eles, monopolizam as mulheres.

A palavra incel voltou a circular como uma moeda gasta.

Celibatários involuntários. Homens que transformam rejeição em tese. Frustração em teoria.

Desapontamento em trincheira.

O bar seguia alto, indiferente. Mas ali, naquela mesa, algo tinha escurecido. Não era apenas a falta de encontros amorosos — era a construção paciente de um ressentimento com gramática própria.

Disseram que há fóruns, comunidades, códigos. Que o Brasil figura entre os que mais alimentam essas conversas. Que às vezes o discurso não fica só na tela.

O copo bateu no mármore com um som seco.

Pensei na minha audição equivocada do início da noite.

Não era “no céu”.

Era um outro lugar.

E agora me pergunto: estamos falando de incels — ou de pequenos infernos cultivados em silêncio, mesa a mesa, tela a tela?

Ana Helena Reis

Ana Helena Reis é paulistana, pesquisadora e empresária, com extensa produção de textos acadêmicos. Em 2019 começou a se dedicar à escrita literária e à ilustração de seus textos em prosa: contos, crônicas e resenhas, relacionados a fatos e situações do cotidiano. Publica em seu blog, Pincel de Crônicas, em coletâneas, e revistas eletrônicas. Em 2024 lançou seu primeiro livro solo, Conto ou não conto, pela editora Paraquedas/Claraboia, e, em Espanhol, Inquietudes Crónicas, pela editora Caravana/Caburé.

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